Banco Mundial diz que agenda climática deve andar “de mãos dadas” com desenvolvimento

Dubai – O vice-presidente para Europa, América Latina e Caribe da Corporação Financeira Internacional (IFC) -instituição pertencente ao Grupo Banco Mundial-, Alfonso García Mora, disse em entrevista ao portal da Agência EFE especializado em notícias ambientais, o EFEVerde, que a “agenda climática tem que andar de mãos dadas com a agenda de desenvolvimento”.

À frente da entidade “irmã” do Banco Mundial que trabalha com o setor privado, García Mora acredita que “não se deve escolher” entre desenvolvimento e ação climática, mas para que “os dois andem juntos” é necessário “um compromisso”.

Nesse sentido, ele defendeu o papel do setor privado, mas também o das políticas públicas para acelerar a descarbonização, e destacou o Pacto Verde Europeu como “um bom exemplo” a ser seguido.

Além disso, considerou que ajudar os países em desenvolvimento a também realizarem a transição ecológica é uma “responsabilidade moral”.

“Os países da OCDE se industrializaram com gás e petróleo, e agora estamos dizendo aos países em desenvolvimento que eles não podem usar isso e que precisam usar energias renováveis diretamente”, acrescentou ele, enfatizando o princípio de justiça que deve ser integrado às negociações da  Cúpula do Clima de Dubai (COP28).

Segundo García Mora, “estima-se que, na América Latina, entre 1,5 e 2 pontos percentuais do PIB por ano tenham sido perdidos devido aos efeitos das mudanças climáticas”, o que reforça a necessidade de realizar adaptações dessa região.

O economista argumentou que, dos estimados US$ 2,4 trilhões por ano necessários até 2030 para enfrentar o desafio da crise climática global – adaptação e mitigação -, “80% têm de vir do setor privado”, que, no entanto, “não está investindo, porque, financeiramente, os números não batem”.

Regulamentação para investimentos verdes

Por isso, é preciso criar as condições para incentivar esse fluxo financeiro, o que pode ser feito através de leis que ajudem a mobilizar o capital global e o investimento privado “verde”.

Entre as políticas públicas que, em sua opinião, deveriam ser adotadas, García Mora propõe a eliminação dos subsídios prejudiciais à crise ecológica, já que “o mundo está cheio de subsídios poluentes”; “desde o uso de fertilizantes na agricultura até o consumo de petróleo em quase todos os países do mundo”.

“Isso precisa mudar e temos que dar a volta por cima para gerar incentivos” e promover subsídios que sirvam para descarbonizar e usar energia limpa, agregou

Defesa do multilateralismo

García Mora também ressaltou o papel de processos como as cúpulas climáticas, uma vez que a transição exigida é um “jogo de coordenação coletiva”, e avanços bilaterais não são suficientes para mitigar as emissões.

Para a mitigação, “o compromisso da Europa, dos Estados Unidos, da Índia, da China e da Indonésia precisa ser muito mais ambicioso”, argumentou ele.

Acordo sobre a Amazônia

A IFC anunciou na COP28 uma iniciativa para apoiar o “crescimento sustentável” na região amazônica, uma aliança de 24 instituições financeiras de Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Espanha, Estados Unidos e Suíça.

Promovida pelo BID Invest e pela IFC – os dois principais financiadores do setor privado da América Latina – a iniciativa compromete os bancos comerciais a “financiar e canalizar o financiamento privado para o desenvolvimento sustentável e inclusivo na Amazônia”.

“Cerca de 20% de todas as reservas de água do mundo estão na Amazônia, 40% das florestas do mundo estão na Amazônia, 10% da diversidade do mundo vem da Amazônia”, lembrou García Mora, que lamentou a destruição desse bioma apesar de seu valor.

O acordo  também  busca promover  o “desenvolvimento socioeconômico” na região, não apenas para proteger as florestas e reflorestar, mas também para que os habitantes da região amazônica tenham “progresso” e “uma forma de desenvolvimento sustentável”.

“Há 47 milhões de pessoas vivendo na região amazônica”, uma população semelhante à da Espanha, mas “quase metade delas está abaixo da linha da pobreza”, concluiu García Mora.