De Braga a Muxía, a Via Mariana que une Portugal e Espanha

A Via Mariana luso-espanhola tornou-se nos últimos anos num novo laço que une Portugal e Espanha, com 400 quilómetros que se ligam com o Caminho de Santiago, pois arrancam no distrito de Braga e terminam no Santuário da Virgen de la Barca de Muxía (Corunha).
Ao todo, são 18 as etapas que podem ser percorridas a pé ou de bicicleta, nas quais se podem visitar mais de uma dezena de templos marianos, entre estes a Catedral de Braga e o Santuário de la Barca, em Muxía. Este último acolhe a célebre Romaria de la Virgen de la Barca, cujo principal dia se celebra no segundo domingo de setembro (desde que não calhe no dia 8), e que em 2025 recebeu 55.000 devotos oriundos de numerosos países, sobretudo de Portugal e Espanha. Aliás, todos os anos, esta localidade da Corunha recebe grupos de visitantes portugueses que chegam de autocarro para assistir ao principal dia da Romaria da Barca.
Enquanto a Catedral de Braga, ícone do românico do século XI e a sé mais antiga do país luso, é o começo da rota mariana, a Ermida da Virgen de la Barca, que representa a meta para o peregrino, se tornou, graças à sua Romaria da Virgen de la Barca, declarada Festa de Interesse Turístico Nacional desde 1989 -e que agora aspira dar o salto para o plano internacional-, noutro dos atrativos para os fiéis. Além do próprio dia grande, a celebração estende-se por quatro dias, nos quais se combina uma intensa programação religiosa com diferentes atividades culturais e de lazer.
Desde o ponto de vista dos fiéis, a conhecida como a Semana de la Barca é um dos poucos momentos do ano em que a imagem da Virgen de la Barca sai em procissão. De facto, a única noite em que a estátua repousa fora do Santuário -e fica custodiada na igreja parroquial de Muxía- é a do Domingo de la Barca, para depois regressar ao templo na manhã seguinte.
A faceta mais cultural e lúdica é vivida na zona do porto, onde a música está presente durante todo o dia: desde diferentes tipos de grupos tradicionais até orquestras de renome ou grandes artistas que atuam ao longo da noite. Outro dos aspetos que mais chama a atenção de residentes e, sobretudo, de visitantes (grande parte deles vindos do estrangeiro) é a maior queima de fogos de artifício da Galiza. Um espetáculo que foi destacado no último International Symposium of Fireworks (ISF) como uma referência dentro do território espanhol.

300 peregrinos completam a Via Mariana

Embora sejam vários milhares os peregrinos que já passaram pela Via Mariana, até à data registaram-se 300 peregrinos que certificaram que completaram todo o percurso dos 400 quilómetros até chegar à Ermida da Virgen de la Barca, passando por uma dezena de santuários luso-espanhóis, de acordo com a Associação Via Mariana Luso-Galaica.
A sua vice-presidente, María José Silva, disse à EFE que esta peregrinação representa “uma verdadeira superação pessoal” que inclui uma “imersão na natureza e no riquíssimo património”.

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Ermidas atlânticas em Espanha e Portugal

No lado português existem ermidas e romarias similares à de Muxía, tais como a multitudinária Romaria do Senhor da Pedra, que dá nome à capela localizada na praia de Miramar, na freguesia de Gulpilhares, a meio caminho entre as cidades de Espinho e Vila Nova de Gaia, e à qual se dirigem centenas de devotos no domingo anterior ao Corpo de Deus.
Enquanto a ermida de Muxía foi construída há mais de quatro séculos para recordar a aparição da Virgem ao apóstolo Santiago, a capela do Senhor da Pedra, de meados do século XVIII, foi construída pelos habitantes da sua freguesia para recordar os marinheiros que perderam a vida nesta zona atlântica. No caso da Romaria de la Barca, dezenas de milhares de pessoas reúnem-se anualmente no principal dia para assistir à procissão e missa solene, além de realizar os rituais ligados às pedras milagrosas localizadas à volta do Santuário. Três delas, a de Abalar, a do Timão e a dos Rins (Cadrís) estão consideradas os restos da barca de pedra na qual, segundo a lenda, a Virgem apareceu diante do Apóstolo Santiago.
A Turismo Porto e Norte, entidade pública do Ministério de Economia de Portugal que gere este setor no Norte português, ressaltou à EFE a importância deste tipo de rotas que, anualmente, ligam milhares de peregrinos e devotos entre a Galiza e o Norte de Portugal.
De facto, o santuário de Nossa Senhora do Sameiro, o início da Via Mariana no distrito de Braga, tornou-se num dos lugares de culto mais visitados de Portugal, com um total de 800.000 visitantes em 2025.
A aposta por este tipo de turismo religioso reflete-se no caso da Turismo Porto e Norte na plataforma “Caminhos da fé”, criada para unificar as rotas religiosas do norte português, muitas delas interligadas com o Caminho de Santiago e o Santuário de Fátima, que atravessa as bacias do Douro e do Minho.
A literatura também deixou a sua marca nestes destinos marianos do Caminho de Santiago.
É o caso de Federico García Lorca ou Rosalía de Castro, que retrataram nas suas criações literárias as vicissitudes da ermida de Muxía, na “Costa da Morte”, ou as inúmeras lendas, na sua maioria pagãs, sobre a capela portuguesa do Senhor da Pedra, que hoje fazem parte do legado lendário do norte de Portugal. EFE