A natureza oferece uma infraestrutura mais efetiva e resiliente: esse foi o grito de membros da sociedade civil e representantes políticos do Sul Global, que esperam liderar o debate sobre adaptação climática na COP30, com um enfoque crucial na segurança hídrica.
Esse foi um dos pontos centrais do evento “Implementação dos indicadores do Objetivo Global de Adaptação (GGA)”, desenvolvido durante a cúpula climática em Belém e organizado pelo FONPLATA – Banco de Desenvolvimento, formado por Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.
O debate, que reuniu líderes de alto nível e representantes governamentais, especialistas técnicos e organizações da sociedade civil, levantou como as soluções de adaptação no setor hídrico que atualmente estão em curso no Sul Global podem ser replicadas a nível mundial.
A adaptação, que entrou oficialmente no documento final da COP28, tomou grande parte da agenda da trigésima cúpula climática da ONU, já que os negociadores esperam deixar a cidade amazônica com indicadores claros e comuns para medir o progresso neste ponto.
No entanto, este tema se transformou em um dos principais obstáculos das reuniões, sobretudo no que diz respeito ao prazo da implementação e à extensa lista de indicadores a levar em conta.
A água e o saneamento básico são uma das sete áreas-chave de ação levantadas dentro do marco das metas globais de adaptação.
Contudo, a questão da água “permeia todas as outras metas”, explicou a presidente do FONPLATA, Luciana Botafogo, responsável por moderar um dos painéis no evento.
Sem água e saneamento “não podemos falar de saúde nem alimentação”, acrescentou a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, uma das participantes da conversa.
A resiliência climática da água, o saneamento e a higiene são o pilar fundamental que possibilita a consecução de todos os demais objetivos.
Apesar disso, Bachelet, que atuou como alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 2018 e 2022, recordou que 2,2 bilhões de pessoas ainda não dispõem de fornecimentos seguros de água potável, e 3,5 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços adequados de saneamento.
“Isso é um problema enorme”, comentou a ex-mandatária chilena, já que obriga famílias, agricultores e comunidades inteiras a se “adaptarem quase diariamente”.
Por sua vez, o vice-presidente de Estratégia do Fundo OPEC para o Desenvolvimento Internacional, Musab Alomar, afirmou que a ideia principal deveria ser “tratar a natureza como uma infraestrutura essencial” em todos os projetos, já que é mais “resiliente e economicamente acessível”.
SOLUÇÕES NAS MÃOS DAS COMUNIDADES
A ideia de trabalhar com a natureza em vez de substituí-la por outro tipo de infraestrutura tomou forma na COP15, em 2009.
Mas, ao longo dos anos, foi detalhada e refinada, e desde o acordo de Paris “até hoje, houve uma aceleração exponencial de iniciativas de ação climática”, segundo Ramiro Fernández, diretor de campanhas do Climate Champion Team.
Ele afirmou que o governo brasileiro rastreou cerca de 700 iniciativas que abrangem desde soluções baseadas na natureza, transição a energias mais sustentáveis, transporte, entre outras questões.
Nesse sentido, a diretora executiva da ONG Água Sustentável, Paula Pacheco, expressou no evento que é importante misturar a ciência com os saberes ancestrais.
“Os satélites e os sensores observam a mudança climática mas os povos a interpretam”, por isso as metas globais de adaptação devem refletir “a união” entre os dados e os significados, afirmou ela.
“O diálogo entre evidência científica e conhecimento local é a chave para pensar indicadores”, acrescentou.
Segundo um recente informe de Nações Unidas, a adaptação é um dos debates mais urgentes, já que superar o limite de 1,5 grau de aquecimento global será quase inevitável nos próximos dez anos, devido ao insuficiente progresso dos países e ao contexto geopolítico desafiador.
“A adaptação não é um conceito abstrato, é sobre garantir que todas as pessoas e as comunidades tenham a capacidade de viver com dignidade e segurança neste contexto (de mudança climática)”, declarou Bachelet. EFE