Diversas organizações não governamentais impulsionam na Guatemala a migração laboral temporária sob esquemas de “recrutamento ético”, como uma alternativa para frear os fluxos irregulares rumo aos Estados Unidos e romper o ciclo de dívidas e práticas próximas ao tráfico de pessoas.
Entidades como a CIERTO, uma contratista internacional de trabalhadores agrícolas, e a Fundação Avina, por meio do projeto “Vozes Migrantes para a Mudança”, promovem um modelo que prioriza a “migração circular”, consistente em viajar, trabalhar de forma regular e retornar com capital às comunidades de origem.
A diretora executiva da CIERTO Guatemala, Cesia Ochoa, explicou à EFE que a diferença entre uma oportunidade legítima e uma fraude está na forma como os custos são assumidos.
“A pessoa trabalhadora não deve pagar por um emprego. Em vistos como o H-2A e o H-2B para os Estados Unidos, os custos devem ser cobertos pelo empregador”, afirmou Ochoa.
No entanto, nas zonas rurais da Guatemala, intermediários não regulados — conhecidos como “coyotes” ou recrutadores fraudulentos — cobram dos camponeses entre 5.000 e 25.000 quetzales (entre US$ 650 e US$ 3.200) por supostos trâmites de vistos.
Essa prática, identificada como recrutamento não ético, empurra paradoxalmente os trabalhadores para a migração irregular.
“Um guatemalteco que já pagou 25.000 quetzales por um visto temporário de quatro meses provavelmente não retornará, mas permanecerá nos Estados Unidos de forma irregular porque, tecnicamente, já pagou um tipo de ‘coyotaje’”, advertiu Ochoa.
Embora a demanda por mão de obra guatemalteca no exterior seja alta, as vias legais são insuficientes.
Segundo dados da CIERTO, o país envia aproximadamente 20.000 trabalhadores por ano por meio de programas regulares, diante de uma capacidade humana e de uma demanda real que superam 65.000 pessoas.
Essa brecha é aproveitada por estruturas criminosas. Para enfrentá-la, a CIERTO atua como uma agência de recrutamento com certificações internacionais — IRIS, da Organização Internacional para as Migrações (OIM), e ClearView —, o que garante processos transparentes e livres de custos para o trabalhador.
“Migração tripartite”
Além disso, foram implementados projetos piloto de “migração tripartite”, que conectam agricultores guatemaltecos ao mercado de trabalho do norte do México para sua capacitação e, posteriormente, a empregadores nos Estados Unidos, elevando assim seus padrões de produtividade.
Para Sindy Hernández, coordenadora do projeto “Vozes Migrantes para a Mudança”, da Fundação Avina, essas iniciativas são vitais em um cenário no qual o Estado não consegue atender às necessidades básicas da população.
“A Guatemala não lhes oferece oportunidades, principalmente econômicas, e o aspecto econômico é transversal à educação, à recreação e à saúde”, afirmou Hernández.
A coordenadora também denunciou a existência de um “duplo discurso” por parte dos países de destino, especialmente os Estados Unidos: enquanto exigem uma migração “ordenada e segura”, as políticas restritivas e a burocracia limitam a obtenção de vistos formais.
“É um cenário adverso, no qual as políticas de rejeição à migração são cada vez maiores e mais agressivas”, lamentou Hernández, que ressaltou a necessidade de gerar condições de inclusão socioeconômica nos países de origem.
O projeto “Vozes Migrantes para a Mudança”, apoiado pela cooperação internacional, facilitou em 2025 a criação da Mesa de Recrutamento Ético na Guatemala, um espaço inédito para definir padrões de proteção trabalhista.
O objetivo final vai além do envio de trabalhadores e busca garantir seu retorno e reintegração bem-sucedida.
“Não vemos a pessoa trabalhadora como um número, mas como um projeto de vida que traz desenvolvimento em nível comunitário”, destacou Ochoa. EFE