Aladi pede vontade política e sensibilidade social para fortaceler comércio na América Latina

Montevidéu (EFE).- Harmonia, vontade política e sensibilidade social são as três chaves para melhorar o comércio intrarregional na América Latina, afirmou em entrevista à Agência EFE o secretário-geral da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), Sergio Abreu.

“Sempre peço harmonia, vontade política e sensibilidade social”, disse o uruguaio, que está desde 2020 à frente da organização formada por Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, e que dedica seus esforços ao aumento do fluxo comercial entre os países da região.

Muito crítico em relação às formas de interferências em assuntos de outros Estados, Abreu disse que há muitos posicionamentos que beiram “a falta de respeito pela autodeterminação dos povos”, principalmente no caso de declarações de apoio político durante períodos eleitorais.

Nesse sentido, recordou que, para fazer política, a harmonia deve ser construída “com mais substantivos e menos adjetivos”, principalmente diante do atual contexto global.

Tempos difíceis

“São tempos difíceis”, ressaltou Abreu, que em 18 de agosto deste ano foi reeleito para um mandato de mais três anos como secretário-geral da Aladi.

Segundo o ex-ministro de Relações Exteriores do Uruguai, as guerras que estão sendo travadas na Ucrânia e na Faixa de Gaza têm repercussões diretas na segurança alimentar e na segurança energética, além de ameaçarem a paz mundial.

“Todos os efeitos dessas circunstâncias têm impacto nas economias”, o que afeta em grande medida os micro, pequenos e médios empreendedores, que apesar de representarem mais de 90% da estrutura produtiva da América Latina e de serem responsáveis por 60% dos empregos formais na região, são “os mais negligenciados”, acrescentou ele.

No entanto, o secretário-geral da Aladi também destacou que espera que em 2024 comecem a se concretizar mudanças que facilitem e promovam o comércio intrarregional e que beneficiem micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).

 Desafios para do comércio intrarregional

Durante a entrevista, Abreu enfatizou que as negociações entre os países que compõem a Aladi representam 11% de suas exportações, enquanto o comércio entre as nações  europeias é de 60%.

Para Abreu, essa taxa de 11% tem se mantido praticamente a mesma porque os países “não tomam decisões claras” para impulsionar as cadeias de valor das MPMEs e ajudá-las a crescer.

“Os 11% significam não apenas desigualdade social, mas também que as democracias se tornam frágeis porque aqueles que vivem mal votam mais por raiva do que por esperança”, insistiu ele.

Entre os desafios para alavancar o comércio intrarregional, ele também elencou as dificuldades logísticas para o transporte de cargas, que atualmente além de demorado e custoso, está sujeito à muitos processos burocráticos, o que resulta em um perda de  “credibilidade e competitividade”.

Ele também explicou que a revolução tecnológica alterou “os critérios de produtividade” e destacou que, se as regiões ou os vilarejos mais remotos não estiverem conectados, haverá uma divisão social maior.

Embora Abreu reconheça que certos avanços foram feitos, ele acredita que “há uma falta de pensamento estratégico” e que os governos pensam mais em como vencer uma eleição do que em como resolver questões como estas.

“Por que demoramos tanto em coisas que precisam ser atualizadas ou, pelo menos, para avançar? É falta de vontade política. Cada governo tem objetivos de curto prazo que não coincidem com os do sucessor”, lamentou.

De acordo com Abreu, em poucos anos, os países que não investirem nas mudanças necessárias não poderão exportar ou terão custos que os farão perder competitividade.

“Se não houver investimento, não há comércio; se não houver comércio, não há emprego; se não houver emprego, não há paz social”, concluiu. EFE