A América Latina e o Caribe, onde 27,3% da população vive em situação de pobreza, se encontra diante do desafio de “aproveitar” as novas tecnologias para identificar com precisão os cidadãos que necessitam de ajuda e analisar se os programas sociais são eficientes, afirmaram nesta quarta-feira, na capital chilena, especialistas convidados para o seminário ‘Inovar para erradicar: Como a tecnologia pode eliminar a pobreza’, organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Durante o seminário, diversos convidados abordaram os desafios de uma região desigual, com países que já utilizam há tempos tecnologia de ponta e outros que nem sequer possuem censos atualizados e enfrentam sérios problemas para coletar dados de sua população.
“É um imperativo ético usar esses novos desenvolvimentos para melhorar nossas bases de dados e tomar melhores decisões, mas o cuidado desses dados também é fundamental, assim como a confiança das pessoas nas instituições”, disse a ministra chilena de Desenvolvimento Social e Família, Javiera Toro.
Uma das ferramentas com as quais o Chile conta desde 2015 é o chamado “Registro Social de Lares”, um sistema de informação que ajuda a selecionar os beneficiários de programas sociais e subsídios, no qual está inscrito 85% da população (mais de 17 milhões de pessoas).
A ministra Toro indicou que o grande desafio é modernizar “constantemente” esse sistema e conseguir “automatizar” a grande maioria dos benefícios sociais para “chegar a mais pessoas” e “evitar que as pessoas enfrentem processos burocráticos difíceis”.
“Para dar um exemplo concreto: a automatização do Subsídio Único Familiar (SUF), que implementamos em 2023, nos permitiu aumentar a cobertura e alcançar 500.000 novas crianças e adolescentes vulneráveis, sem que precisassem se inscrever”, acrescentou a titular do Ministério chileno de Desenvolvimento Social.
Redução da pobreza na América Latina
Em 2023, o percentual da população latino-americana em situação de pobreza diminuiu para 27,3%, a cifra mais baixa desde que existem registros.
Trata-se de uma redução de mais de 5% em relação a 2020, o ano mais crítico da pandemia, de acordo com os números mais recentes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
A redução da pobreza, segundo este organismo das Nações Unidas, foi principalmente resultado da forte diminuição da pobreza no Brasil, onde vive um terço da população total da região.
Para César Hidalgo, professor da Escola de Economia de Toulouse e diretor do Center for Collective Learning (CCL), o Brasil é precisamente um dos países que está liderando a região na implementação de tecnologias para enfrentar a pobreza.
Graças aos bons dados disponíveis, um estudo recente conseguiu identificar por que no sul do Brasil as pessoas conseguem sair da pobreza mais rápido do que no norte, afirmou Hidalgo.
“No norte do Brasil, muitas pessoas de alta renda trabalham no Governo e as de baixa renda, no campo. Enquanto isso, no sul, existem indústrias mais complexas e trabalhadores mais qualificados que se misturam com outros menos preparados, gerando uma troca de conhecimento, o que permite que prosperem”, argumentou o economista.
Desconfiança e coleta de dados
Os especialistas, no entanto, alertaram sobre a crescente desconfiança que a coleta e o uso de dados geram na população.
“Gostaria de dizer às pessoas para não terem medo das tecnologias, pois podemos nos beneficiar delas. Podemos usar a melhor tecnologia para melhorar a vida das pessoas”, disse a ministra de Serviços Humanos e Segurança Social da Guiana, Vindhya Vsini.
O BID celebrará, de 28 a 30 de março, no Chile, a reunião anual de sua Assembleia de Governadores, na qual ministros de Finanças e Economia e outros altos funcionários dos 48 países membros discutirão, junto ao setor privado, os desafios e oportunidades de desenvolvimento na América Latina e no Caribe.
O seminário desta quarta-feira sobre pobreza e novas tecnologias faz parte da agenda de atividades prévias à Assembleia de Governadores mencionada, encontro que não era realizado no Chile desde 2001 e que, paralelamente, também reunirá os governadores do BID Invest, o braço da organização que trabalha com o setor privado.
Segundo disse o presidente do BID, Ilan Goldfajn, na abertura dos seminários, esta semana se concentrarão no fortalecimento de sua capacidade financeira, na modernização de seus instrumentos financeiros e na mobilização de soluções do setor privado para obter “resultados mais tangíveis”. EFE