Desde tirar uma foto como um antigo imperador e analisar uma relíquia reconstruída pixel a pixel até a possibilidade de usar uma inteligência artificial (IA) treinada para dominar a cultura local como “guia pessoal”: assim é o novo turismo, repleto de experiências imersivas, que o Grupo de Investimento Cultural de Shaanxi (SCG) e a Huawei buscam implementar na cidade de Xian, uma das mais antigas da China, com mais de 3.000 anos de história e conhecida por ser o ponto de partida da Rota da Seda e a antiga capital de 13 dinastias.
Para isso, as duas companhias lançaram o BoGuan, um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla em inglês) especializado no patrimônio cultural material e imaterial da província de Shaanxi – onde Xian está localizada,-, no centro da China, e desenvolvido para se tornar o maior especialista digital da cidade que tem entre suas principais atrações o Exército de Terracota, com mais de 8.000 esculturas em tamanho real construídas há cerca de 2.200 anos para o mausoléu de Qin Shihuangdi, o primeiro imperador da China unificada.
Nos últimos anos, em gr.ande parte graças a esse icônico complexo arqueológico de cerca de 100 km², a região registrou uma explosão no fluxo de visitantes, com cerca de 862 milhões de turistas nacionais em 2025 e um aumento de 98,14% no número de estrangeiro em comparação ao ano anterior, segundo dados fornecidos pelo diretor-geral adjunto do SCG, Pang Bo, em uma recente apresentação à imprensa.
O passado dentro do celular
O aplicativo mais chamativo para o turista é a Zhiying Camera, que realiza montagens com precisão histórica. Basta o usuário selecionar uma foto e, em poucos segundos, a ferramenta gera uma imagem dele vestido com trajes da dinastia Tang (618-907), época em que Xian — então chamada Changan — era a capital do país e uma das cidades mais populosas e cosmopolitas do mundo.
“Você está em um lugar maravilhoso e quer tirar uma boa foto, mas o local está cheio de gente e não é fácil conseguir. Com a IA, você consegue”, explica Wang Peng, diretor de Negócios de Turismo Cultural da Plataforma de Computação da Huawei.
O LLM também funciona como assistente de viagem inteligente, com o qual os turistas podem interagir por mensagem ou voz para planejar rotas, responder a perguntas em tempo real ou obter recomendações personalizadas.
Wang destaca que, enquanto “antes só era possível ouvir explicações em pontos fixos, agora é possível interagir com o modelo a qualquer momento e em qualquer lugar”, em referência ao seu papel de apoio em museus.
Entre outras aplicações, o modelo também auxilia na reconstrução digital de peças históricas e na geração de vídeos comerciais baseados no patrimônio da região. O objetivo, nas palavras do executivo, é “apresentar a cultura com maior precisão e compartilhá-la de forma mais ampla”.
Os dados, peça-chave
Por trás desses resultados está a forma como o modelo foi construído. Para garantir a confiabilidade das respostas, imagens ou vídeos gerados, o BoGuan foi alimentado com mais de 1,2 bilhão de dados sobre o patrimônio provincial, utilizando tanto filmagens quanto gravações de áudio, modelos tridimensionais e textos.
Jin Yan, presidente do Grupo de Tecnologia Cultural Digital e Inteligente do SCG, destaca essa base de dados como elemento que diferencia o modelo de sistemas generalistas e garante rigor histórico.
“A reprodução do conteúdo é mais precisa e se ajusta melhor às realidades históricas”, explica, em comparação com modelos generalistas, citando como exemplo detalhes como as diferenças nos trajes de diferentes períodos.
Jin também ressalta o valor de sua construção “totalmente nacional”, na qual os chips Ascend 910C da Huawei — alternativos aos processadores ocidentais que dominam o mercado global — são combinados com modelos de linguagem de código aberto e fechado já existentes, sobre os quais foi criada a camada especializada em patrimônio cultural.
O novo padrão
O resultado é o BoGuan, lançado em setembro de 2025 e apresentado pelo SCG e pela Huawei como o primeiro modelo multimodal comercial do mundo para o turismo cultural, uma indústria que passa assim a integrar a revolução mundial dos grandes modelos de linguagem.
Edric Chu, diretor-geral do escritório da Huawei em Shaanxi, previu que a inteligência artificial se tornará uma infraestrutura fundamental e passará a ser “o padrão” para museus e pontos turísticos.
“A IA não é simplesmente um conjunto de tecnologias”, afirma Chu, que garante que ela se tornou um fator-chave capaz de ativar milênios de patrimônio cultural, transformar as experiências de viagem e impulsionar o setor. EFE