Um grupo de especialistas pediu nesta quinta-feira uma ação coordenada entre governos, instituições e sociedade civil para enfrentar o impacto do vírus sincicial respiratório (VSR) na América Latina, uma região que tem visto um aumento significativo nos casos desta infecção, que pode ser grave em crianças menores de 1 ano e bebês prematuros.
Alejandro Cravioto, professor de Microbiologia e Saúde Pública da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), enfatizou que a pandemia de covid-19 trouxe à tona a necessidade de melhorar os sistemas de cuidados primários na América Latina, uma região onde as unidades de terapia intensiva (UTIs) em hospitais pediátricos foram sobrecarregadas por casos de bebês e crianças internados com VSR.
A prevenção
Cravioto foi um dos palestrantes, nesta quinta-feira, do fórum virtual “Diálogos EFE Saúde: Vírus Sincicial Respiratório, o impacto sobre bebês e prematuros na América Latina”, que também contou com a presença da diretora do Departamento de Pediatria da Associação Latino-Americana de Tórax (ALAT), Lydiana Ávila.
Ela destacou que anualmente há 33 milhões de casos de VSR em crianças menores de cinco anos de idade e, desse total, aproximadamente 3 milhões têm que ser hospitalizadas e cerca de 60 mil morrem, principalmente em países em desenvolvimento.
A prevenção “é um trabalho que temos que fazer em todos os setores”, disse Angélica Maya, infectologista e conselheira do governo do departamento de Antioquia, na Colômbia, que pediu às famílias que “se eduquem sobre os riscos”.
Cravioto enfatizou que os sistemas de saúde na região precisam melhorar e ser equitativos. Ele sugeriu o lançamento de uma ampla campanha que inclua a prevenção da gravidez na adolescência, bem como um melhor acesso a anticorpos monoclonais, que reduziram as hospitalizações e mostraram ser até 80% eficazes.
Tratamento como parte de um plano abrangente

O VSR é uma causa muito comum de infecção das vias respiratórias inferiores (brônquios, bronquíolos e alvéolos pulmonares) que pode afetar pessoas de qualquer idade, mas pode ser particularmente grave em bebês e idosos.
Bebês prematuros, com neuropatias crônicas (doença pulmonar crônica ou displasia broncopulmonar, fibrose cística), com cardiopatias congênitas ou imunodeficiências estão sob maior risco de complicações e hospitalização devido ao VSR.
Ávila enfatizou hoje que, de cada 100 crianças infectadas, cinco acabam hospitalizadas, e elas são geralmente bebês prematuros, nascidos antes de 37 semanas de gravidez. Um perigo ainda maior, de acordo com ela, existe para aqueles com menos de 32 semanas.
Por sua vez, Cravioto explicou que o tratamento com anticorpos monoclonais envolve até cinco doses, embora novos desenvolvimentos o reduzam a uma única dose. Segundo ele, resta saber quanto custará e a facilidade de acesso para os países da região.
“Descobrimos que muitas famílias não têm acesso a estes tratamentos”, disse Martha Herrera Olaya, diretora da Fundação Fiquires, da Colômbia, que também participou do fórum virtual e pediu equidade para que as políticas públicas cheguem a todas as crianças e mães, especialmente as que vivem em áreas remotas e de extrema pobreza.
Ela também pediu à comunidade científica e aos governos para que levem os pais em consideração na construção de políticas de saúde.
Medicamentos e vacinas preventivas
Embora não existam vacinas aprovadas por autoridades reguladoras, há um medicamento que reduz as taxas de hospitalização.
Trata-se de um anticorpo monoclonal (palivizumab), uma proteína artificial que atua no sistema imunológico e previne “enfermidade grave por VSR em certos bebês e crianças que são de alto risco”, como bebês prematuros, com doença cardíaca congênita ou displasia broncopulmonar, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
A respeito, os palestrantes destacaram a pesquisa de uma vacina, embora existam dúvidas quanto a sua acessibilidade.
Cravioto mencionou que o Fundo Rotativo da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que assegurou o fornecimento de vacinas para os países membros, poderia ser uma solução para a distribuição equitativa de vacinas.
“Quero enfatizar que o medicamento como tal não tem tanto impacto quanto um plano global”, que deveria envolver reuniões intersetoriais regulares, disse Angélica Maya.
Estas crianças são “o futuro de nossos países, esta responsabilidade está nas mãos de todos”, enfatizou, por sua vez, Martha Herrera.